Câmara Pestana 2007-imgPrémio Câmara Pestana 2007 para Investigadores do ITQB

A explicação dos mecanismos de biossíntese de três compostos produzidos por micróbios que vivem em ambientes extremamente quentes – descrita no artigo «Biosynthetic pathways of inositol and glycerol phosphodiesters used by the hyperthermophile Archaeoglobus fulgidus in stress adaptation» – recebeu o Prémio Câmara Pestana 2007. O trabalho, publicado na revista científica Journal of Bacteriology (2006), foi liderado pela Professora Helena Santos, do Instituto de Tecnologia Química e Biológica (ITQB), da UNL.

Água a escaldar não é certamente o ambiente mais adequado à vida na Terra. Excepto se estivermos a falar de organismos hipertermófilos – ou seja, micróbios que crescem optimamente a temperaturas próximas de 100 ºC. É o caso de Archaeoglobus fulgidus, um microrganismo descoberto em fontes hidrotermais no sul de Itália, em 1987, e que tem sido estudado pelo grupo de «Fisiologia Celular e NMR», liderado pela Professora Helena Santos. O objectivo da equipa é compreender – do ponto de vista fundamental – quais as estratégias bioquímicas desenvolvidas por organismos hipertermófilos para conseguirem resistir a condições de temperatura tão inóspitas à vida humana.

Para tal, os cientistas do ITQB analisaram como é que A. fulgidus se comportava quando submetido a condições de stress. Ou seja, obrigaram o micróbio a crescer num ambiente mais quente e/ou mais salgado do que o habitual. E o resultado foi surpreendente. É que – para se protegerem das condições adversas a que estavam sujeitas – as células do organismo «acumulavam dois compostos nunca antes descobertos», revela Helena Santos. A. fulgidus produziu ainda uma terceira molécula, mas esta já era conhecida da comunidade científica.

A seguir, o grupo de Oeiras mostrou que estes compostos conseguem impedir a desnaturação de enzimas e proteínas quando estas biomoléculas são submetidas a temperatura elevada. Por isso, os solutos descobertos pela equipa do ITQB – entretanto patenteados – têm potenciais aplicações tecnológicas. Por exemplo, na preservação de vacinas em países africanos; ou em hidratantes de pele, já que estes produtos impedem igualmente a desidratação celular. «Estou mais interessada na investigação fundamental, pois só assim se avança no conhecimento da natureza», diz a investigadora, «mas quando esta é bem feita, geralmente descobrem-se aplicações.»

Porém, para viabilizar a produção em larga escala dos três compostos sintetizados por A. fulgidus, era ainda necessário decifrar a sequência das reacções químicas utilizada para os fabricar. Foi por esse trabalho que o grupo liderado por Helena Santos foi agora galardoado com o prémio atribuído conjuntamente pelo Instituto Câmara Pestana e pela empresa farmacêutica GlaxoSmithKline.

Além da Professora Helena Santos, contribuíram para o estudo premiado: Nuno Borges, Luís G. Gonçalves, Marta V. Rodrigues, Pedro Lamosa, Filipa Siopa, Rita Ventura, e Christopher Maycock, sendo os três últimos cientistas membros de uma segunda equipa também do ITQB (Síntese Orgânica) que sintetizou quimicamente alguns dos compostos necessários para o trabalho. O Prémio Câmara Pestana, com o valor monetário de 2500 euros, distingue anualmente cientistas portugueses que se tenham destacado na área da microbiologia.

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