O nosso parasita da leishmaniose habla español?
A leishmaniose é um problema crescente de saúde pública na maior parte dos países mediterrâneos, incluindo Portugal. Agora, uma equipa de investigadores europeus – na qual participaram duas investigadoras do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT), da Universidade Nova de Lisboa (UNL) – conseguiu, pela primeira vez, demonstrar que o grupo de parasitas responsável por esta infecção é idêntico em Portugal e Espanha continentais, e geneticamente distinto do existente nas ilhas Baleares e Grécia, incluindo outros países da bacia mediterrânica tais como Turquia, Tunísia e Israel. Esta descoberta permite dar um passo importante na clarificação de questões epidemiológicas fundamentais sobre a leishmaniose. Os resultados do estudo foram publicados quarta-feira, 9 de Julho (2008), na revista científica PLoS Negleted Tropical Diseases.
«Ninguém se lembra que esta doença humana existe na Europa», alerta Lenea Campino, Directora da Unidade de Leishmanioses, do IHMT-UNL, e co-autora do trabalho agora publicado. Na verdade, o número de novos casos de leishmaniose nos países mediterrâneos tem vindo a aumentar. A causa deve-se principalmente a co-infecções Leishmania-VIH, sendo que cerca de 9% dos doentes com SIDA desenvolvem a doença. Nesta população verificou-se o aparecimento de um novo ciclo de transmissão: a contaminação entre consumidores de drogas, em que a partilha de seringas substitui o vector usual – o insecto flebotomíneo. Há ainda a acrescentar o aumento da transmissão de Leishmania infantum, a espécie responsável pela doença no nosso país, devido às alterações climáticas. Além disso, como os cães são os principais hospedeiros do parasita, os animais abandonados são um importante foco da infecção em Portugal. «Se aparecer algum factor de desequilíbrio», diz Campino, «poderemos enfrentar uma grave epidemia».
Perguntas sem resposta
No entanto, muitas incógnitas rodeiam ainda a epidemiologia da leishmaniose. É que a genética das populações de L. infantum nos países do Mediterrâneo ainda é pouco conhecida. Sabe-se que a maioria das estirpes nesta região pertencem a um único grupo – o MON-1 – (em Portugal tem uma predominância de 96,7%), mas, até hoje, não era possível discriminar geneticamente subgrupos geográficos deste parasita.
Analisando estirpes de MON-1 com a técnica de microssatélites – semelhante à utilizada em testes de paternidade – os autores de «Differentiation and Gene Flow among European Populations of Leishmania infantum MON-1» descobriram que existem três populações geneticamente diferenciadas de MON-1 nos países à volta do Mediterrâneo: um grupo em Portugal e Espanha continentais; outro grupo nas ilhas Baleares; e um terceiro na Grécia (incluindo Turquia, Israel e Tunísia). Com esta descoberta, os cientistas poderão agora perceber se a forma como a doença se manifesta, geograficamente, está relacionada com a genética da estirpe local. Por exemplo, porque é que, em Portugal, o mesmo agente infeccioso uma vez causa leishmaniose visceral e outras vezes leishmaniose cutânea (uma forma menos grave da doença) em pessoas imunocompetentes? Será devido a características genéticas específicas do parasita? Ou do hospedeiro? Ou do vector?
Para já, a pergunta fica em aberto. Mas a equipa de investigadores prevê que análises genéticas continuadas das estirpes do parasita, recolhidas em toda a área mediterrânica, permitirão, por exemplo, identificar todas as subpopulações locais do parasita e perceber qual o grau de fluxo genético entre elas; estudar o impacto de ciclos de transmissão natural (insecto) e artificial (seringas) na epidemiologia da infecção; comparar a diversidade genética do parasita em doentes imunocompetentes e imunodeficientes, entre outras questões epidemiológicas ainda sem solução. Este trabalho abre caminho a novos conceitos na epidemiologia da leishmaniose.




