Incidência de VIH-1 multirresistente está a diminuir em Portugal
Investigador da NOVA diz que multirresistência a anti-retrovirais tenderá a desaparecer
O número de novos casos de seropositivos com resistência a anti-retrovirais está a diminuir, ao longo do tempo, em Portugal. De 2001 a 2006, a probabilidade de haver um novo portador do vírus da imunodeficiência humana tipo 1 (VIH-1) com multirresistência a fármacos baixou 20%, em cada ano. Uma estatística promissora que resulta de um estudo desenhado pelo investigador da Universidade Nova de Lisboa (UNL), Ricardo Camacho, publicado na revista científica Retrovirology. E inédito internacionalmente.
Em doentes infectados com VIH, o pior prognóstico é o aparecimento de resistência a fármacos, devido a mutações desenvolvidas pelo vírus. Nestes casos, a eficácia dos medicamentos decresce drasticamente e as alternativas terapêuticas dos pacientes poderão tornar-se francamente limitadas. No entanto, Ricardo Camacho, investigador do Hospital Egas Moniz e do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT-UNL), começou a aperceber-se que o número de novas ocorrências de insensibilidade aos tratamentos estava a decrescer. «Volta e meia, gosto de olhar para os meus dados e notei que, nos últimos anos, apareciam menos doentes [com resistências a anti-retrovirais].» Faltava demonstrá-lo cientificamente.
Para isso, foi realizada uma rigorosa análise estatística dos dados referentes a seropositivos seguidos em 22 hospitais de Portugal continental e do arquipélago da Madeira. E os resultados foram surpreendentes. Entre Julho de 2001 e de 2006, o decréscimo de resistência multifarmacológica foi de 5,7%, 5,2%, 3,8%, 3,4% e 2,7%, em cada ano consecutivo. Mas o estudo vai mais longe: a equipa de cientistas belgas e portugueses demonstrou que a resistência a classes de anti-retrovirais, isoladamente, também está a decrescer. Resultados que pasmaram a comunidade científica.
«Ninguém acreditava», recorda o investigador do Egas Moniz. Para convencer os pares, a equipa de cientistas refinou as análises e apresentou os resultados em diversos congressos internacionais. Finalmente, não havia margem para dúvidas – e o estudo foi publicado em Fevereiro.
Segundo Ricardo Camacho, a mudança favorável deve-se à evolução dos fármacos, os quais se tornaram, ao mesmo tempo, cada vez mais potentes, com menos efeitos secundários e maior comodidade posológica. «Os pacientes começaram por tomar 32 comprimidos por dia, ou mesmo mais, e brevemente [o cocktail] irá reduzir-se a apenas um», refere o cientista. Além disso, os médicos também ganharam muita experiência. Por isso, Ricardo Camacho considera que os doentes infectados com VIH devem ser seguidos apenas em centros especializados. «Queremos que a curva de resistência continue a decrescer.»
É também por essa razão que, no estudo, se conclui que é muito importante procurar medicamentos cada vez mais fáceis de usar, ou com menor toxicidade, em vez de se apostar predominantemente na investigação de anti-retrovirais contra vírus multirresistentes. É que, segundo o especialista em sida, estes casos «estão a desaparecer».




