A fome no mundo continua a aumentar, enquanto, paradoxalmente, nos países desenvolvidos se desperdiça cerca de um terço dos alimentos produzidos. O desperdício alimentar cresce ao longo de toda a cadeia de valor, desde os produtores até aos consumidores finais, sendo que 35% do desperdício é gerado ao nível do consumidor. Atualmente, estima-se que o desperdício de fruta represente cerca de 27% do total do desperdício alimentar na União Europeia. O ImproVITA foi desenvolvido com o objetivo de criar um conservante alimentar mais eficiente e sustentável, com propriedades antimicrobianas, capaz de prolongar a vida útil de frutas frescas cortadas para além das soluções atualmente disponíveis. O aumento da vida útil dos frutos conduz à redução do desperdício, com impacto económico direto e um impacto ambiental significativo, uma vez que o desperdício alimentar é responsável por cerca de 8 a 10% das emissões globais de gases com efeito de estufa.
O trabalho inicial foi desenvolvido no âmbito do projeto ERC Consolidator Grant Des Solve (ERC-2016-CoG 725034), integrado no projeto de doutoramento de Liane Meneses (10.54499/SFRH/BD/148510/2019). Reconhecendo o potencial da formulação desde os primeiros resultados laboratoriais, a equipa participou, em 2020, no programa de empreendedorismo Born from Knowledge, promovido pela ANI. Neste contexto, os investigadores receberam feedback da indústria alimentar que validou a necessidade do produto e o potencial da solução proposta. Durante este período, a estabilidade do ácido ascórbico foi validada à escala laboratorial em múltiplos NADES, sendo posteriormente otimizada a formulação ImproVITA, que viria a ser testada na preservação de diferentes amostras. A partir dos primeiros contactos com a indústria, foi estabelecida uma parceria com a Campotec, para testes em fatias de maçã fresca, e com o Rocha Center, para ensaios em pera.

Em 2023, o projeto ImproVITA foi distinguido com um ERC Proof of Concept Grant (ERC-PoC-ImproVITA-101138403). Desde o início deste projeto, a equipa aprofundou significativamente o desenvolvimento da solução. A formulação foi apresentada a empresas nacionais e internacionais de produtos frescos e prontos a consumir, que confirmaram unanimemente o seu potencial. Foram estabelecidas parcerias com a Driscoll’s Portugal e a BFruit, duas empresas especializadas na produção de frutos vermelhos. Estes frutos são dos mais sensíveis, com uma vida útil de apenas oito dias, mesmo em condições ideais de armazenamento. Ambas as empresas demonstraram interesse na extensão da vida útil dos seus produtos e têm vindo a testar a solução em contexto real. Os estudos-piloto indicam que a utilização do ImproVITA permite prolongar a vida útil dos frutos vermelhos em dois dias. Embora este aumento possa parecer reduzido, é, na prática, extremamente relevante. Uma vez que grande parte da produção é exportada para a Europa Central e do Norte, este tempo adicional permite que os frutos cheguem aos mercados em melhores condições, influenciando positivamente a perceção do consumidor relativamente à marca e à qualidade do produto.
Num contexto distinto, e em colaboração com a Florette, o ImproVITA foi também testado na preservação de folhas (alface, espinafre, entre outras), respondendo à necessidade identificada pela empresa de um conservante que aumente a vida útil de saladas e folhas embaladas. Atualmente, a equipa continua a desenvolver estes estudos e a candidatar-se a novos financiamentos em parceria com as empresas envolvidas.
Os recursos obtidos permitiram reunir resultados ao longo de seis anos de investigação, culminando no pedido de patente “Food preservative eutectic composition, methods, and uses thereof” (2024) e, recentemente, na publicação do artigo científico “Incorporating Ascorbic Acid into Natural Deep Eutectic Systems: A Study on Antioxidant Preservation” na revista ACS Food Science and Technology (DOI: 10.1021/acsfoodscitech.5c00067). O elevado impacto desta investigação foi igualmente difundido através dos meios de comunicação social, com destaque para reportagens na RTP, no jornal Público e na Agência Lusa, entre outros. Em 2023, o ImproVITA venceu ainda a 10.ª Edição do Prémio Crédito Agrícola de Empreendedorismo e Inovação, na categoria “Segurança Alimentar e Nutrição”, reforçando o reconhecimento da novidade e relevância da solução.
Ao abordar simultaneamente a redução do desperdício alimentar, a segurança alimentar, a inovação e a sustentabilidade ambiental, o ImproVITA contribui para vários Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Em particular, apoia o ODS 2 – Erradicar a Fome (Meta 2.1), ao melhorar a disponibilidade de alimentos frescos e nutritivos através da redução das perdas pós-colheita; o ODS 8 – Trabalho Digno e Crescimento Económico (Meta 8.2), ao promover a inovação e aumentar a produtividade no setor agroalimentar; o ODS 9 – Indústria, Inovação e Infraestruturas (Meta 9.5), através do reforço da investigação científica aplicada e do desenvolvimento tecnológico; o ODS 12 – Produção e Consumo Sustentáveis (Meta 12.3), ao reduzir o desperdício alimentar ao longo da cadeia de valor; e o ODS 13 – Ação Climática (Meta 13.2), ao contribuir para a redução das emissões de gases com efeito de estufa.
O ImproVITA é um produto inovador que permite reduzir o desperdício alimentar ao nível do consumidor, ao aumentar a vida útil de frutas e hortícolas prontos a consumir.
Alexandre Paiva
