Lançado em 2011 sob o lema “a literacia em saúde promove cidadãos mais ativos e participativos”, o projeto Saúde que Conta, atualmente na sua nona fase, é um projeto científico de longo prazo que tem gerado mudanças significativas e mensuráveis nas políticas nacionais, no planeamento da saúde pública e na capacitação dos cidadãos. Reuniu investigadores das áreas da medicina, educação, jornalismo, sociologia e psicologia, bem como decisores políticos e representantes da sociedade civil, com o objetivo de estudar e promover a literacia em saúde em Portugal.
A primeira grande contribuição do projeto foi lançar as bases para o primeiro estudo nacional sobre literacia em saúde em Portugal. Através do Think Tank Capacitação do Cidadão em Saúde, foram reveladas duas conclusões centrais: níveis mais elevados de literacia em saúde estão associados a melhores resultados em saúde da população, e o investimento em literacia em saúde conduz a uma utilização mais eficaz dos serviços de saúde e a menores custos em cuidados de saúde. Com base nesta evidência, a segunda fase analisou a tomada de decisão partilhada em saúde, demonstrando a necessidade de melhorar a comunicação entre doentes e profissionais para permitir uma participação efetiva dos cidadãos nas decisões sobre a sua saúde.
Um dos impactos mais relevantes ocorreu na terceira fase, quando o projeto liderou a aplicação em Portugal do European Health Literacy Survey. Este estudo revelou que 61% da população apresentava níveis problemáticos ou inadequados de literacia em saúde, especialmente no domínio dos cuidados de saúde. Estes resultados foram determinantes para o desenvolvimento da Estratégia Nacional para a Literacia em Saúde, em 2016, representando um marco importante de impacto em políticas públicas diretamente sustentado pela investigação do projeto.
Nas fases seguintes, o Saúde que Conta continuou a expandir o seu alcance. Em 2018, foram lançados dois livros digitais — “Decidir em conjunto sobre a nossa Saúde e Doentes em Segurança” — com o objetivo de traduzir os resultados científicos em ferramentas acessíveis ao público em geral. Em 2019, o estudo “Literacia em Saúde na Doença Crónica”, desenvolvido em parceria com a Ordem dos Farmacêuticos, demonstrou que pessoas com doenças crónicas e baixa literacia em saúde recorrem mais frequentemente aos serviços de urgência e apresentam menor adesão aos tratamentos.
A sétima fase incidiu sobre estudantes do ensino superior, revelando que 44% apresentavam níveis inadequados ou problemáticos de literacia em saúde, com diferenças associadas ao contexto socioeconómico. Estes resultados evidenciaram a necessidade de abordagens orientadas para a equidade no contexto académico.

Em 2023, o projeto analisou a literacia em saúde e a qualidade de vida dos cuidadores informais em Portugal, concluindo que 58,6% apresentavam níveis inadequados ou problemáticos de literacia em saúde, diretamente associados a menor qualidade de vida e maior sobrecarga do cuidador. Este trabalho sublinhou o impacto social alargado da literacia em saúde para além dos contextos clínicos.
A fase atual centra-se na obesidade, explorando a perceção da doença, os níveis de literacia em saúde e as atitudes da população face à condição. Paralelamente, foi lançado o podcast “Lado B da Literacia”, disponível no Spotify e Apple Podcasts, que aborda temas complexos e frequentemente negligenciados, como a inteligência artificial, a literacia genómica e o conceito One Health. Com 12 episódios e 34 especialistas convidados, o podcast constitui um exemplo claro da articulação entre investigação académica e envolvimento do público.
A investigação desenvolvida no âmbito do Saúde que Conta teve um impacto significativo na academia, nos cuidados de saúde e nas políticas sociais e públicas. Mais de 11.000 pessoas participaram nas diferentes fases do projeto, mais de 50 investigadores solicitaram a utilização da versão portuguesa do European Health Literacy Survey (HLS-EU-PT), e os resultados contribuíram para inúmeras dissertações e teses académicas. As publicações científicas e a participação em conferências nacionais e internacionais reforçam a amplitude do impacto do projeto.
O seu impacto reflete-se ainda em parcerias estratégicas com instituições como a Plataforma Saúde em Diálogo, a Direção-Geral da Saúde e a Rede Académica de Literacia em Saúde, entre outras. Os dados e o conhecimento produzidos foram fundamentais para identificar necessidades, orientar soluções e mobilizar apoio institucional, permitindo o desenvolvimento de políticas públicas, a criação de recursos para a população e a sensibilização de cidadãos, profissionais de saúde, educadores e decisores políticos para a importância da literacia em saúde.
Em última análise, a maior contribuição do projeto foi a integração da literacia em saúde como uma prioridade de saúde pública em Portugal, influenciando práticas e políticas. O seu compromisso contínuo com a investigação, a divulgação e a colaboração garante que o seu impacto continuará a crescer, beneficiando comunidades, instituições e indivíduos.
“O Saúde que Conta tem como objetivo investigar a literacia em saúde para desenvolver estratégias que permitam aos cidadãos adquirir os conhecimentos e as competências necessárias para tomar decisões informadas para si próprios e para as suas comunidades. Os seus principais objetivos são contribuir para o debate público e sensibilizar para a importância da literacia em saúde, bem como avaliar os níveis de literacia em saúde e implementar estratégias que capacitem efetivamente os cidadãos.
Ana Rita Pedro
