Por toda a Europa rural, o abandono das terras é frequentemente encarado como um problema, associado ao declínio da agricultura, à perda de meios de subsistência e ao desaparecimento das paisagens culturais. Contudo, no sudeste de Portugal, está a emergir uma história diferente. Esta narrativa não se centra no declínio, mas numa recuperação silenciosa e persistente — um processo em que a natureza regressa, de forma espontânea, a territórios outrora degradados pelo uso intensivo.

Desde 2019, uma linha de investigação desenvolvida na NOVA FCSH, em colaboração com os Professores Maria José Roxo e Adolfo Calvo-Cases, tem-se dedicado a compreender o que acontece após o abandono agrícola em ecossistemas mediterrânicos semiáridos. Nos matagais e terras secas do Baixo Alentejo, onde solos frágeis e uso intensivo da terra aceleraram processos de erosão e degradação, o fim da atividade agrícola marca, muitas vezes, o início da restauração ecológica.
No centro deste trabalho encontra-se um local experimental único: o Centro Experimental de Erosão de Vale Formoso, onde 17 parcelas de monitorização de erosão de longo prazo foram deixadas sem intervenção após 2008. Criado inicialmente para estudar perdas de solo sob diferentes usos e práticas de gestão, o local transformou-se, de forma inesperada, num laboratório vivo para a observação das dinâmicas ecológicas pós-abandono. O padrão observado foi claro: a vegetação natural regressou, o carbono orgânico do solo aumentou e as funções ecológicas começaram a ser progressivamente restauradas, sem intervenção humana.
Para documentar este processo, a investigação combinou trabalho de campo, deteção remota, monitorização da vegetação com drones e análises laboratoriais de solo. Estes dados permitiram modelar espacialmente as alterações nos stocks de carbono e na cobertura vegetal. As visitas ao terreno e as entrevistas com atores locais permitiram ainda ancorar os resultados em paisagens reais e em experiências vividas.

Os resultados são cientificamente e socialmente relevantes. Demonstram, de forma mensurável, que terras pobres e degradadas podem recuperar serviços de ecossistema reguladores e de suporte, como o sequestro de carbono, a retenção de água e a conservação da biodiversidade. Numa região marcada pela vulnerabilidade climática e pelo declínio demográfico, esta recuperação constitui uma forma concreta de resiliência.
A partir destes resultados, desenvolveu-se um amplo ecossistema de impacto. A investigação deu origem a dois projetos Erasmus+ (CarboNostrum e MedSEVa), que traduziram o conhecimento académico em ferramentas práticas para proprietários, agricultores e educadores. O CarboNostrum criou um curso b-learning multilingue em cinco países (Portugal, Espanha, Itália, Grécia e Turquia), com mais de 50 participantes na primeira edição e cerca de 800 inscritos na plataforma online, bem como um manual para pequenos agricultores em adaptação às alterações climáticas (com mais de 700 leituras) e materiais de divulgação que alcançaram mais de 25 000 pessoas. O projeto MedSEVa trabalha atualmente na valorização dos matagais mediterrânicos e na promoção de usos sustentáveis de espécies nativas para alimentação, cosmética e restauração ecológica.
Este percurso conduziu também à criação da CarBio-Solo, uma spin-off universitária dedicada ao desenvolvimento de linhas de base de carbono e à avaliação de serviços de ecossistema em paisagens em recuperação. A CarBio-Solo permite a proprietários e cooperativas medir e valorizar economicamente serviços de ecossistema em terras marginais, abrindo novas oportunidades económicas e promovendo simultaneamente a regeneração ecológica.
O trabalho tem sido partilhado com públicos diversos, desde comunidades científicas internacionais até decisores e atores locais e regionais. Apresentações em conferências de geomorfologia e deteção remota permitiram testar e aprofundar os resultados em diálogo com pares. O reconhecimento em eventos como o simpósio da European Association of Remote Sensing Laboratories refletiu não apenas a qualidade técnica da investigação, mas também a sua relevância para os debates sobre uso do solo, clima e monitorização ecológica.
Para além da academia e do empreendedorismo, o projeto procura influenciar a forma como o abandono é percecionado pelas instituições locais. Em workshops com municípios e entidades regionais, os resultados têm sido utilizados para apoiar prioridades de restauro e planeamento de adaptação climática. Onde antes o abandono era sinónimo de degradação, começa agora a ser visto como uma possível porta de entrada para a renovação ecológica e económica.
Visualmente, o impacto é evidente. Séries temporais de imagens e modelos de altura do coberto vegetal mostram paisagens cada vez mais verdes. Matagais e espécies nativas reconquistam antigos campos e cicatrizes de erosão. Estudantes, agricultores e decisores percorreram parcelas abandonadas onde, até há pouco tempo, a recuperação parecia impossível.

Esta não é uma história de reversão do abandono ou de reocupação de territórios perdidos, mas de uma nova forma de olhar para a terra “abandonada”: reconhecendo o seu potencial ecológico, o seu valor climático e o seu papel num futuro social e culturalmente mais resiliente. Num mundo marcado pela incerteza climática e pela transformação rural, esta investigação oferece uma mensagem de esperança: mesmo em contextos de perda, a recuperação é possível.
Ao articular observação de campo, dados de satélite, participação dos atores locais e ferramentas aplicadas, este trabalho liga o conhecimento científico à ação no terreno. Demonstra que o conhecimento ecológico, quando é visível, acessível e relevante, pode transformar a forma como a terra é valorizada, como as decisões são tomadas e como os desafios globais podem ser enfrentados através da ação local.
O regresso da natureza não é apenas um processo biológico. É uma narrativa de resiliência, adaptação e regeneração — que começa quando deixamos a terra voltar a respirar.
As decisões territoriais devem ser tomadas de forma diferente: através de um planeamento adaptativo, assente num diagnóstico rigoroso das diferentes realidades geográficas. Em terras pobres e degradadas, já vulneráveis às alterações climáticas e à desertificação, este conhecimento orienta a restauração, protege os meios de subsistência e ajuda-nos a manter uma organização mais integrada das paisagens, onde a atividade humana e os ecossistemas coexistem em equilíbrio.
Maria José Roxo
