Da mesa de jantar da família de Brígida Baptista ao seu percurso como arqueóloga e doutoranda, as narrativas sobre o atum e a pesca estiveram sempre presentes. Esta motivação pessoal conduziu a sua carreira académica de regresso ao ponto de origem: uma aldeia piscatória do Algarve. Brígida integra o CHAM desde 2021, sendo atualmente membro do Grupo de Investigação Ambiente, Interações e Globalização, e investigadora no projeto ERC Synergy Grant 4-OCEANS. A sua tese de doutoramento, orientada pela Professora Associada Cristina Brito, constrói uma narrativa histórica que cruza a história moderna com a história ambiental marinha.

Desde 2014, Brígida tem vindo a reconstruir a história da pesca do atum em Santa Luzia, inicialmente através da história oral e, mais recentemente, por meio de investigação histórica sistemática. A praia do Barril e a antiga armação de atum — onde a sua família viveu e pescou durante quase um século — foram o seu primeiro objeto de estudo. A partir desse trabalho nasceram, em 2014, a Rota do Atum do Barril e, mais recentemente, a Tuna Odyssey®. Recolher e preservar estas narrativas é fundamental para compreender a dimensão humana da pesca — social, cultural e económica — assim como a dimensão ambiental: o atum enquanto recurso natural, a sua ecologia e os impactos da exploração continuada.
Ao dar visibilidade a esta história local a nível nacional e internacional, o projeto contribui para a produção de novo conhecimento e para a recuperação de memórias invisibilizadas, preservadas no seio da comunidade. Este processo ajudou a transformar a perceção por parte das autarquias e das entidades de gestão patrimonial e aproximou a comunidade, promovendo a partilha de saberes e a procura conjunta de novas formas de proteger e valorizar o património material e imaterial.

Foram desenvolvidas diversas atividades públicas que reuniram diferentes setores e gerações. A construção deste sentimento partilhado de pertença e identidade revelou-se particularmente significativa. Santa Luzia, amplamente conhecida como a “Capital do Polvo” pela sua importância nacional na pesca desta espécie, revisitou a sua história ligada ao atum — uma história em que os antigos pescadores, vivos e já desaparecidos, continuam a ocupar um lugar central.
A armação de atum do Barril funcionou, pelo menos, entre 1841 e 1966. As novas descobertas relativas aos séculos XVI a XVIII ao longo da costa algarvia, apresentadas nesta investigação doutoral, acrescentam conteúdos valiosos para painéis interpretativos, publicações, visitas guiadas, conversas informais e comunicação científica. Este trabalho demonstra que a região oferece muito mais do que “sol e praia”: é, acima de tudo, um território de vivências e memórias que, apesar do turismo de massas, permanecem enraizadas numa relação secular entre as pessoas e os atuns que todos os anos percorrem esta costa.
O trabalho de Brígida nesta comunidade tem sido amplamente reconhecido. Em 2024, recebeu a Medalha de Mérito (Grau Prata) da Junta de Freguesia de Santa Luzia, e a Associação Lais de Guia foi distinguida com a Medalha Municipal de Mérito (Grau Prata) pela Câmara Municipal de Tavira. Foi ainda nomeada Membro Honorário da Confraria do Atum. Em termos de visibilidade mediática, o projeto foi divulgado em jornais regionais — Barlavento, Correio do Sul, Algarve Informativo e Postal do Algarve —, em rádios locais como a Rádio Gilão e a Rádio Horizonte, e nas redes sociais da Junta de Freguesia de Santa Luzia e da Câmara Municipal de Tavira. A equipa foi igualmente convidada a integrar a Rota do Atum-Rabilho na Rede de Turismo Industrial de Portugal, processo que se encontra atualmente em desenvolvimento.
Brígida pretende dar continuidade à investigação, aprofundando a integração entre história ambiental, património material e imaterial e comunicação de ciência. Este tema emergiu de forma orgânica ao longo da sua vida pessoal e profissional. É uma história de pessoas e de animais — de atuns e de quem com eles interagiu e interage. Cresce a partir de relatos ouvidos, esquecidos e recordados em encontros familiares. A investigadora move-se entre diferentes espaços — família, comunidade local e academia — onde cada pessoa contribui com a sua própria experiência, formando, em conjunto, uma narrativa coerente.
Ao partilhar esta história local a nível nacional e internacional, o projeto contribui para a produção de conhecimento, para a recuperação de memórias e para o fortalecimento de um sentimento de pertença. Conhecer e pertencer são motores poderosos de mudança e de ação — neste caso, para a salvaguarda de um património comum enraizado nos ecossistemas naturais e nos animais, no património construído e nas tradições imateriais de viver junto e do mar.
O projeto contribuiu para uma mudança na perceção das autarquias e das entidades de gestão do património, mas também da própria comunidade, que se reuniu para partilhar conhecimento e construir novas formas de proteger e valorizar o património material e imaterial.
Brígida Baptista
