
O projeto ETHICHO – Coreografias ético-ontológicas: formas de objetificação e avaliação do embrião humano in vitro no contexto das Tecnologias de Reprodução Assistida (TRA) e da investigação científica, coordenado por Catarina Delaunay e financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), gerou impactos significativos a nível social, profissional e académico. O projeto combinou investigação empírica de excelência com um forte compromisso com o envolvimento público, a transferência de conhecimento e o desenvolvimento de competências.
Segundo a OCDE, um em cada sete casais experiência infertilidade, um número em crescimento devido ao adiamento da parentalidade. Em Portugal, as TRA são utilizadas por casais inférteis, mulheres solteiras e casais de mulheres. No entanto, estes procedimentos apresentam taxas de sucesso reduzidas e podem ser emocionalmente exigentes, contribuindo para sofrimento, isolamento e exaustão decisória.
O ETHICHO respondeu a uma lacuna no debate público ao criar um espaço para 74 beneficiários de TRA elaborarem experiências emocionais complexas através de entrevistas conduzidas com empatia e cuidado. Uma participante escreveu: “Estou muito grata por fazerem parte do meu processo de cura.” Outros expressaram agradecimento de forma verbal. Ao amplificar as narrativas de grupos sub-representados — pessoas inférteis, indivíduos LGBTQI+ e mães solteiras — o projeto promoveu inclusão social e contribuiu para maior equidade na representação dos utilizadores de TRA no discurso público e nas políticas.

O ETHICHO traduziu os resultados científicos em formatos acessíveis para um público mais alargado. Destaca-se a série de podcasts Embriões, que explora os mundos sociais dos embriões a partir da investigação, em linguagem clara. Os episódios estão disponíveis no Spotify e no Google Podcasts. O projeto integrou ainda o programa nacional de divulgação científica 90 Segundos de Ciência (episódio 1096), ampliando significativamente o seu alcance.
As redes sociais (Facebook, Instagram e Twitter) e o website do projeto foram utilizados para partilhar atualizações e divulgar resultados. O Facebook revelou-se particularmente importante para alcançar beneficiários de TRA, sobretudo através de grupos privados sobre infertilidade e parentalidade, garantindo um fluxo contínuo e dialogante de comunicação entre investigadores e participantes.
O projeto contribuiu para políticas de saúde baseadas em evidência, promovendo a troca de conhecimento entre diferentes atores. O seminário final, “A (bio)medicalização do ciclo de vida: nascer, crescer e morrer”, contou com profissionais de saúde entre oradores e participantes, permitindo a co-validação dos resultados e a formulação de recomendações orientadas para a ação. Os resultados do ETHICHO foram publicados em revistas internacionais interdisciplinares (como Reproductive Biomedicine & Society Online e Patient Education and Counseling), contribuindo para boas práticas na comunicação e no apoio à tomada de decisão relacionada com embriões.
A investigadora principal está também a preparar um manual de boas práticas para profissionais de saúde e um policy brief destinado a promover políticas de TRA mais inclusivas, em alinhamento com a Agenda 2030 das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável.
O ETHICHO trouxe contributos originais para a Sociologia da Saúde, Antropologia Médica e Estudos de Ciência e Tecnologia. Um artigo de referência desenvolveu o conceito de “coreografias emocionais” para descrever a forma como os utilizadores de TRA se relacionam com os embriões ao longo do tempo. O artigo teve forte impacto internacional, com 7 665 visualizações, 89 gostos e 20 partilhas nas primeiras 48 horas no Twitter, e originou um convite da Professora Alicia Walker para contribuir para o blogue do Council on Contemporary Families.
Outro artigo reinterpretou a teoria weberiana para compreender a tomada de decisão dos embriologistas, tendo sido elogiado pelo Professor Thomas Kemple (Universidade da Columbia Britânica), que o descreveu como “uma utilização esclarecedora dos tipos ideais de ação social de Weber […] plenamente alinhada com o seu enquadramento metodológico.”
O projeto abordou ainda a ética da investigação através de um artigo sobre dilemas metodológicos na investigação com populações vulneráveis, que originou dois convites de elevado prestígio: um da Professora Pranee Liamputtong para contribuir para o Handbook of Sensitive Research in the Social Sciences (Elgar, 2025) e outro para gravar um estudo de caso para a Sage Research Methods.
O ETHICHO contribuiu para a formação de estudantes e para o reforço da capacidade científica, oferecendo dois estágios, duas bolsas de iniciação à investigação (no âmbito do Verão com Ciência 2021) e uma unidade curricular com tarefas de transcrição, codificação e análise de entrevistas. Quatro estudantes foram acompanhados em escrita académica e análise de dados. O projeto foi apresentado e discutido em 11 unidades curriculares de licenciatura, mestrado e doutoramento (por exemplo, na NOVA FCSH, ICS-UL, UBI e FEUC), promovendo o diálogo entre investigação e ensino.
Três investigadores em início de carreira — um estudante de mestrado/doutoramento, um investigador doutorado e um bolseiro de pós-doutoramento — foram contratados pelo projeto e encontram-se atualmente envolvidos em iniciativas nacionais e europeias, ilustrando o contributo do ETHICHO para o desenvolvimento de capital humano.
O ETHICHO demonstra como a investigação sociológica de elevada qualidade pode informar a comunicação em saúde, melhorar a compreensão pública e promover políticas inclusivas. O seu impacto multidimensional abrange apoio emocional aos utilizadores de TRA, envolvimento público, inovação académica, influência política e desenvolvimento de competências, evidenciando um forte retorno do investimento público em investigação.
A investigação pode tornar o invisível visível quando legitima experiências vividas que as instituições tendem a ignorar. Ouvir com cuidado não é acessório à ciência; é a condição para produzir conhecimento que serve verdadeiramente a vida das pessoas e informa políticas mais justas. Ao abrir o diálogo entre doentes, profissionais e decisores, a investigação torna-se um ato público que ajuda a reformular o discurso social sobre o que conta como vida, bem como as conceções de cuidado e de justiça.
Catarina Delaunay
