“Haverá Democracia! O papel da universidade no espaço público”: leia aqui a visão do Reitor da NOVA

6 de Fevereiro, 2026

Este foi o discurso proferido no início do encontro que decorreu quinta-feira, 5, na Reitoria da Universidade NOVA de Lisboa

“Vivemos um tempo exigente, volátil e complexo. Um tempo marcado por incertezas profundas quanto ao presente e ao futuro, por fraturas sociais cada vez mais visíveis e por uma inquietante normalização do que, há poucos anos, nos pareceria inaceitável. A democracia, em muitos contextos, é tratada como um mero dado adquirido, enquanto a confiança nas instituições se vai erodindo, substituída por polarização política e ruído mediático.

Este é também um tempo de desinformação e de anti-intelectualismo, em que o valor da ciência e o lugar do conhecimento no espaço público são questionados de forma sem precedentes nos tempos recentes. As opiniões ocupam, cada vez mais, o espaço antes reservado aos factos. E perante os impasses com que vamos convivendo, instala-se uma resignação coletiva, como se nada pudesse realmente ser diferente.

É precisamente neste contexto que a universidade tem uma responsabilidade acrescida. Não apenas como lugar de produção de conhecimento, mas como espaço de pensamento crítico, de mediação democrática e de responsabilidade pública.

A universidade não pode limitar-se a observar o mundo. Deve envolver-se nele. Deve questionar, problematizar, contrariar a inércia e criar condições para o debate informado. Deve ser um espaço onde o pensamento tem tempo, onde a complexidade não é reduzida a slogans e onde a dúvida é motor de conhecimento.

Mas a universidade é mais do que um lugar de produção de conhecimento especializado. É, ou deve ser, um espaço público qualificado. Um lugar de confronto de ideias, de deliberação informada e de construção do comum. Uma instituição que forma não apenas profissionais competentes, mas cidadãos livres, capazes de pensar criticamente, de discordar com respeito e de rever posições à luz dos factos.

Vivemos um tempo paradoxal. Nunca se falou tanto e, nunca se dialogou tão pouco. Nunca houve tanta informação e nunca foi tão difícil distinguir o que é verdadeiro do que é falso. Comunica-se muito, mas escuta-se pouco. Há opiniões instantâneas para todos os gostos, mas escasseia o pensamento crítico e aprofundado. O mediatismo pesa mais do que a reflexão, e o debate público fecha-se frequentemente sobre identidades fixas e confrontos personalizados que empobrecem a discussão e afastam os cidadãos.

Num mundo atravessado por crises climáticas, conflitos armados, desigualdades persistentes e transformações tecnológicas aceleradas, o espaço público torna-se simultaneamente mais necessário e mais vulnerável.

A universidade deve afirmar-se como espaço público qualificado. Um lugar onde o pensamento se inscreve, onde a divergência é acolhida e onde a pluralidade não é relativismo cego nem campo de batalha, mas debate informado. Um lugar onde o conhecimento não se fecha sobre si próprio, mas se coloca ao serviço da sociedade.

Num tempo de ruído e de simplificação, a universidade deve ser um espaço de escuta, de tempo longo e de pensamento denso. Neste contexto, é essencial criar ritmos próprios no espaço público — momentos de pausa, de escuta e de reflexão partilhada. Espaços que façam o pensamento PULSAR, que devolvam movimento à razão crítica e que reativem a ligação entre conhecimento, debate e participação cívica.

A democracia é um bem escasso que não pode ser dado por adquirido. É um processo em permanente construção, que exige vigilância, pensamento crítico e participação cívica. E a universidade, enquanto instituição de razão crítica, tem um papel insubstituível nesse processo.

Se queremos uma democracia viva, precisamos de universidades que não se resignem. Universidades que questionem, que dialoguem e que se afirmem como espaços de cidadania e de liberdade intelectual. Porque a democracia depende, em larga medida, da qualidade do espaço público que formos capazes de construir.”