“Haverá Democracia! Universidade e Razão Crítica”: “Mais do que um momento académico, que seja um gesto público de confiança na democracia e no conhecimento”

6 de Fevereiro, 2026

“Que este evento seja mais do que um momento académico. Que seja um gesto público. Um gesto de inscrição. Um gesto de confiança na democracia e no conhecimento.” Foi com este apelo que a Reitoria da Universidade NOVA de Lisboa acolheu, na quinta-feira, dia 5, o encontro “Haverá Democracia! Universidade e Razão Crítica”, que inaugurou o Pulsar, Universidade e Espaço Público, um ciclo permanente de palestras, debates e fóruns cívicos dedicado às grandes questões do nosso tempo e ao reforço do espaço público democrático.

“Com este ciclo, afirmamos a universidade como um coração cívico que bate no espaço público democrático, através de iniciativas que não se limitam a produzir discursos, mas que criam condições concretas para pensar em comum”, sublinhou o Reitor da NOVA, Paulo Pereira, a propósito da responsabilidade acrescida da universidade enquanto lugar de produção de conhecimento, de pensamento e de mediação democrática – discurso que pode conhecer na íntegra aqui.

Perante um auditório cheio, reafirmou o compromisso de uma NOVA “aberta à sociedade”, que não se limita a observar o mundo, mas que se envolve nele e intervém no espaço público, convocando a comunidade académica e a sociedade para um exercício de escuta, debate e construção do comum.

A presença do filósofo José Gil, professor jubilado da NOVA e autor do ensaio “Portugal Hoje, o medo de existir”, marcou o início do encontro. E, além dos riscos com que nos debatemos, foram também apresentadas ferramentas para a cidadania, cada vez mais imprescindíveis.

José Gil: “Uma imagem irreconhecível das relações humanas”

Comecemos pelas palavras de José Gil que, do alto dos seus 86 anos, apresentou a sua visão do mundo. Começou por falar do risco de uma ameaça maior, como o “apogeu do tecnofascismo”, citando diversas fontes do pensamento crítico contemporâneo, desde Jonathan Rauch, num artigo da The Atlantic do início de 2026, intitulado “Yes, it’s fascism!”, até Naomi Klein e o seu mundialmente reconhecido Doppelgänger. Assinalou que “o discurso extremado atual carece de princípios teóricos”, que é “culturalmente pobre”, mas usado, de forma dissimulada, como a ameaça de um “fim do mundo” que está para chegar.

“Em vez de suscitar a solidariedade mundial, a forma como lidámos com a Covid-19 acabou por conduzir a uma extraordinária perversão”, assinalou José Gil, acrescentando que “depois, o contágio provocado pelo anúncio do fim do mundo ultrapassou as fronteiras da América, atingindo não só a Europa como a Ásia”. O pior? Tudo isto foi agora revisto e aumentado pelo facto de “alimentarmos um algoritmo” que nos cria uma “necessidade de consumo absolutamente insaciável”, sem esquecer que toda “esta economia digital” tem culpas incontornáveis quando se fala da “destruição ambiental do planeta”.

Em suma, deixou claro o seu alerta contra “um poder imenso e desmesurado que se prepara” para “alimentar exércitos inteiros de robôs”. Isto, num cenário em que a vida pública e a vida privada “já mal se distinguem”, caminhando nós para “uma imagem irreconhecível das relações humanas”.

Debate: “Não se pode lutar contra o vento com as mãos”

Guiado por José Maria Pimentel, economista, professor e autor do podcast «45 Graus», o debate protagonizado por João Cancela (professor da NOVA FCSH), Susana Peralta (professora da NOVA SBE), Sandra Monteiro (diretora da edição portuguesa do Le Monde Diplomatique) e David Dinis (diretor-adjunto do Expresso) começou por reconhecer a falta de discussão no espaço público.

“Sobretudo pela ausência de referências partilhadas”, assinalou João Cancela, ao que Sandra Monteiro acrescentou “a falta de pluralismo e pluralidade, de encontro para lá do que acontece nas redes sociais”, alertando para “o colapso da ordem assente no Direito Internacional”.

Neste cenário, impõe-se outra questão, como também alertou Sandra Monteiro: “o jornalismo atual já não é um pilar da democracia; tornou-se parte do problema”, lembrando que “desde 2019 constatamos a presença regular de André Ventura” como “protagonista da informação televisiva”. Mas, como David Dinis recordou, a origem de tudo isto é muito anterior, remontando ao momento em que se inventou o “clickbait” para ter mais publicidade. “Não se pode lutar contra o vento com as mãos”.

E tudo isto acontece num cenário em que, segundo um estudo publicado pelo ICS, e ali citado por Susana Peralta, cerca de 41 por cento dos portugueses vivem bem com a ideia de ter “um líder forte” que poderia, “em algumas circunstâncias”, resolver todos os nossos problemas. “A solução? Ler jornais, pagar para isso…”, assinalou a economista, para que a imprensa livre possa continuar a cumprir o seu dever de incomodar o poder. E “também não ostracizar o outro, nunca excluir, procurar, antes de tudo, tentar compreender o que se está a passar…”.

Ferramentas para a cidadania: “Não obedeças antecipadamente…”

Este foi o primeiro mandamento apresentado por Joana Gonçalves de Sá, investigadora em ciência de dados e aprendizagem automática, com trabalho sobre enviesamentos algorítmicos, na apresentação que se seguiu, intitulada “Ferramentas para a cidadania”.

“O meu ponto de partida é simples”, clarificou: “é que quando se fala do possível retorno do tecnofascismo isso deixa-me muito ansiosa”, assumiu a especialista, antes de convocar a sala, em tom provocador, a confrontar-se com algumas ideias feitas, socorrendo-se de uma ferramenta interativa para interpelar o público sobre a quantidade de pessoas com comportamentos racistas nas suas relações ou sobre os anos em que as temperaturas registaram recordes, na última década e meia, sendo que foram quase, quase todos.

Inspirada em “20 ideias para combater a tirania”, apresentou as suas sugestões, ou mandamentos, como lhes chama o autor daquele livro, Timothy Snyder. Assim, depois de “Não obedeças antecipadamente”, surge “defende as instituições”, seguido de “faz contacto visual e conversa trivial”, rematando com “contribui para boas causas”. E ainda um kit de ferramentas que, usado no nosso dia a dia, nos leva a uma cidadania mais ativa e presente – e que inclui ações como participar, debater, escutar…

A fechar, uma espécie de cereja no topo do bolo, com a música de Samuel Úria.
Um evento que pode ver na íntegra no Youtube da NOVA